É isto…

Sempre a dupla. Ela a doente. Ele por trás. Ela de olhos baixos envergonhados. Ele com um encolher de ombros pronto. Ela pálida, magra, cabelo fosco. Ele atlético, encolher de ombros denunciador. Ela sem vontade. Ele encolhe os ombros, “é isto…”.

Tiveram uma vida costumeira. Casaram aos vinte anos. “Ela era um pedaço, dra, olhe o que isto ficou…”. Encolhe os ombros. Tiveram duas filhas. “Mesmo grávida fazia parar os carros, agora é isto…”. Os ombros concordam. Ele polícia, ela em casa. Ele nas rondas, ela na lide doméstica. Ele atleta, ela a crescer as filhas. Ele sem tempo, ela perdida no tempo de sobra. A beber. A beber. A beber. Sozinha. Sem ninguém olhar e notar.

Foi no hospital, já débil e agora com pouco tempo, que a evidência revelou a vida de anos. “Um homem a trabalhar, vai a ver e é isto…”. Ombros recriminatórios.  Ela vazia e esgotada. Nem um sussurro para os ombros. Nem um desvio de olhar. “É isto… o que ela foi e o que ela é… nem uma sombra…”.

Vida revista e chorada, ela foi tratada. Recuperação dura e longa. “Isto… isto nunca mais volta a ser o que era…”. Ombros encolhem em tom de vítima.

Recuperação dura e longa mas com final. Final bom. Ela ganhou saúde e energia. Ganhou ser. Ganhou vontade e preencheu-se. A dupla continua. Agora sem ombros a encolher. Ela entra, ele ao lado. Dois sorrisos, olhos que brilham. Ele corre, ela caminha. Ela arruma, ele cozinha. Ele ainda mostra fotografias de quando “isto é que era uma mulher…”. Ela já responde, “se não estás bem, põe-te!”.

António

Quarenta e quatro anos sumidos. Descarnado, cabelo baço, olhar vazio. Trémulo. Anda mal, come mal, vê mal. Não se revolta com a vida. Nem triste, resignado.

Nasceu em sítio errado. Quatro irmãos, pai pescador, mãe- mãe. Perdeu o pai para o mar, tinha cinco anos. Perdeu a mãe para a doença, tinha 11 anos. Perdeu a irmã para a loucura, tinha 15 anos. Perdeu o irmão para a doença, tinha 19 anos. Perdeu o irmão sem doença, fugiu daquele sítio errado e foi viver.

Na adolescência sonhava. Sonhava que não tinha a doença e jogar futebol. Tinha jeito. Sonhava com uma família. Teve uma namorada, perdeu-a. Perdeu-a quando chegou a doença. Teve um trabalho, mas a doença tirou-lho.

Sozinho, foi viver com tios e primos. Aí encontrou calor e chegou a ser feliz. Barulho, risos, mesas cheias, discussões, zangas e entendimentos. Confusão boa. Os primos cresceram. Cresceram, casaram e procuraram uma vida melhor. Só a encontraram em França. A casa mais vazia. O tio morreu. A casa tão vazia. Ele e a tia.

Ele e a tia. Precisam-se. Dias frios iguais. Silêncio, esperam as férias dos primos para aquecer com barulho. Ele cada vez mais sumido. Sempre o medo de não chegar até à próxima confusão.

Mas tem vencido os anos na espera de cada verão. Apaziguado.

Antes, depois e agora

Tem cinquenta e dois anos, refinou-se muito nos últimos dez. Há o antes e o depois.

No antes era cantoneiro. Desde os 14 anos. Trabalhava na junta, bebia nos intervalos e entre eles. Tanto como outros, mais do que alguns. Foi assim que cresceu. Pai incógnito, mãe alcoólica. Tios alcoólicos. Avós alcoólicos. Cresceu e foi perdendo o pouco aprumo que tinha.

Engordou, perdeu os dentes e casou. A mulher era vizinha, andaram juntos na escola. Ele o mais rufia, ela a melhor aluna, era esperta. Fizeram a quarta classe, bastou. Cinco filhos, dos 25 aos 7 anos. O mais velho emigrou para a Suiça, o mais direito, o único que gostava de trabalhar. Os dois seguintes perderam-se, álcool, droga e esquemas. O quarto era o artista, o orgulho do pai. Fez o sexto ano só com duas negativas e já uma namorada. Foi ficando por casa, passava as tardes no café, coleccionava engates. Engravidou a vizinha casada, o bebé igual ao avô que também é padrinho, só não sabe quem não quer. Um artista, o orgulho do pai. O pequeno é invisível, ninguém dá por ele. A mulher por casa, costura e ampara.

Veio então o depois. Depois de ficar doente e de melhorar. Deixou de beber, pôs dentes novos, pediu a reforma. Emagreceu, fez uma plástica. Pensa em grande, quer ser empresário. Comprou um computador, não o pagou, precisa dele para trabalhar.

No agora colecciona amigos no facebook. Um like para a sua fotografia debruada a vermelho-natal, com direito a reflexo no espelho.

Vida clara

Quarenta anos, alto e muito magro. Pálido, macilento e muito enrugado. Solteiro, sem trabalho e muito doente. Educado e simpático. Vivia com a mãe que vivia para ele.

Foi uma criança calma e fácil. Aos 16 anos, quando o pai morreu- má idade para um pai morrer, que nunca é boa- perdeu-se com as más companhias. Charro puxa charro, enterrou-se na heroína. Deixou a escola, cultivava duas vidas.

A vida clara, a casa da mãe, a normalidade do irmão, os almoços de família. O quarto limpo, a cama feita, o banho quente, o gato, os naprons na mesa de entrada, os pass-partouts. O louceiro, as cómodas, as colchas de renda. E a mãe a sorrir.

A vida escura, os companheiros do pó, as casas abandonadas, as seringas, as pratas, o frio. O medo, as fugas, o limite. E a heroína a esperar.

A vida clara e a vida escura nunca se misturaram. Encontravam-se na saída do prédio da mãe, mas cada uma seguia o seu caminho. Durante a manhã ficava com a luz: depois do calor da casa, o trabalho, isso sempre manteve. No fim do dia passava pelo escuro e podia voltar então a casa. Chegava calmo, bem disposto e sempre afável.

Quando ficou doente deixou a vida escura. Enroscou-se na vida clara e como sempre a mãe sorria. O irmão sonhava que pudesse ser padrinho do filho acabado de nascer. Procuraram ajuda e encontraram.

Enroscado na vida clara ficou bom. A mãe sorri a fazer almoços. O irmão ainda não crê que o filho tem padrinho.

Perder

Dezanove anos de vida, dezoito de doença. Esquálido, pele acidentada, barba rara. Olhos e óculos no chão, que o olhar pesa. Palavras poucas, reduzidas a murmúrio. Sempre triste, nunca um sorriso.

Desde sempre pelos hospitais, por lá cresceu. Por lá brincou e foi à escola. Por amigos tinha os que lá trabalhavam. Tinha a querida mãe, nunca o deixava. Vivia no hospital ela também. Nos intervalos iam a casa.

Aos dois anos esteve a morrer, aos oito também. Salvou-o a mãe, deu-lhe parte de si.  Salvou-o da morte mas não dos hospitais. Os anos continuaram a somar, a vida vista à janela. Não andou de bicicleta, não jogou futebol, não correu, não gritou, não caiu. Não faltou a uma aula, não comeu na cantina, não teve zaragatas. Não teve melhor amigo, não fez amigos. Não teve namorada.

Aos doze anos a mãe morreu. Outra doença, outro hospital, uma perda. Ficou pai e irmã.

Aos quinze anos esteve a morrer. A irmã foi mais que mãe. Suspendeu a vida e nunca o deixava. Ao seu filho verdadeiro dava colo momentâneo. Corria ao carro para dar a mama, num momento, e voltar.

Aos dezoito anos a irmã ficou doente. Outra doença, outro hospital. Tem o pai, que encontra mal boas palavras. Tem muito medo de perder outra mãe.

 

Praia

Aos 3 anos enganavam-lhe a fome com ensopado de vinho, aos 5 já ele aprendera a enganá-la. Aos 8 anos ajudava com as cabras, a fome ia desenganada, escondida na companhia do garrafão. Aos 11 assumiu o rebanho, dividia o barril com o pai. Namorou aos 13, casou-se aos 16. Um filho aos 20, outro aos 22.

Vinte e sete anos. Sumido pela doença, olhos mortiços, cabelo baço e barriga. Sumiu o corpo e a vontade. A voz é um fio. Ouve inerte a sua história pela boca do tio. Sem trabalho, sem dinheiro, sem saúde. A mulher ocupa-se entre levar os meninos sujos à escola e os cafés. A casa em tijolo, galinheiro por cima, mantém-se em desalinhada imundice. O sogro aparece pela noite, bêbedo entre insultos. Fome agora não passa.

Há meses que entra e reentra no hospital, vai de visita a casa. Deixou de beber mas as melhoras tardam. Os meninos choram pelo pai, querem-no por perto. No hospital não os quer, podem apanhar doenças. A mulher pouco aparece, ocupada que está. Ajudam o tio e os vizinhos, têm pena.

Nos períodos de lucidez tem pensado na vida. Gostava de ver os filhos crescer. Tem medo  de ficar sem eles. Sonha-lhes um futuro diferente. Uma sorte melhor que a sua. Não pôde fugir da que lhe deram.

Sabe que está a morrer. Uma lágrima nos olhos mortiços, reanimados por momentos. Quer conduzir, levar os filhos à praia, um dia.

Direito à indignação

Metro e meio, oitenta quilos, queixo espetado em frente, vazio de dentes. Cabelo besuntado, risca ao meio. Nariz adunco. Ao lado, quase sempre a mulher, compreensiva, paciente, olha-o com enlevo. Três filhos absorvem os dizeres do pai, parecem-lhes acertados.

Nunca trabalhou, não é agora com 50 anos que vai trabalhar. A mulher dá umas horas nas limpezas, coisa pouca, não pode das costas. Vive em bairro camarário. Recebe cabaz de comida cada mês. Governa-se com rendimento que ela, a dra da segurança social, lhe dá. Medicação garantida. Transportes para o hospital são oferta da casa.

Indignação é a sua imagem de marca. Chega sempre envermelhado de tanta coisa inacreditável a acontecer ao seu redor, cambada de incompetentes. Sente-se num país onde nada funciona e ninguém quer trabalhar. Soubera ele escrever e dançariam livros de reclamações.

Ultimamente sente-se particularmente injustiçado. Os filhos, com direito a educação do mais alto nível, a frequentar colégio privado a custo zero, já uma tradição familiar, foram transferidos para a escola pública! Preocupa-o a convivência com todo o tipo de crianças, gente sem princípios. Já se teve de incomodar com a directora de turma das meninas, não é que lhes marcou falta de material?!

Os médicos são um alvo preferencial, dão-lhe nervos. Um não gosta dele, outro deu o remédio errado- é burro ou quê? Não o querem operar, é assim que um gajo morre, não dão os calmantes e um dia destes ainda lhes vai aos cornos…

Chovem queixas, insultos, lamentos, protestos, reivindicações. Sobram uns minutos finais para a consulta. – Ai dra, só você é que me compreende!…

Ufa!!!!!